Começa no dado. (E quase ninguém percebe isso.)
Recentemente em uma discussão no MBA, a professora Sofia Martinelli trouxe uma provocação que ficou comigo:
“Sustentabilidade sem governança é apenas intenção.”
Naquele momento, estávamos debatendo materialidade, LGPD e governança de dados. Mas, na prática, essa frase descreve exatamente o que tenho visto no mercado.
Deixe-me contar três situações reais (sem citar nomes, claro).
Caso 1 – O relatório ESG impecável… até a auditoria começar
Uma empresa estruturou um relatório ESG robusto:
✔️ Indicadores de diversidade ✔️ Dados de afastamentos por saúde ✔️ Métricas de clima organizacional ✔️ Informações consolidadas de SST
Tudo parecia perfeito.
Até que surgiu a pergunta:
— Qual é a base legal para tratar esses dados sensíveis?
Silêncio.
Os dados de diversidade envolviam informações sensíveis. Os relatórios de saúde ocupacional continham dados médicos. As métricas estavam espalhadas entre RH, SST e TI.
Não havia:
❌ Registro formal de tratamento ❌ Política clara de retenção ❌ Definição de data owner ❌ Avaliação de impacto (RIPD)
O relatório era bonito. A governança, frágil.
Na prática, o risco LGPD era maior que o ganho reputacional do ESG.
Caso 2 – O eSocial como fonte invisível de ESG
Outro exemplo: empresa do setor industrial.
Ao revisar eventos do eSocial (S-1200, S-2240, S-2220), percebemos algo interessante:
Os dados enviados ao governo continham exatamente as informações que alimentariam:
- Indicadores sociais
- Dados de saúde e segurança
- Métricas de risco ocupacional
- Estatísticas de afastamentos
Mas não havia integração entre DP, SST, Jurídico, ESG, etc
Ou seja, os dados já existiam. O que faltava era governança.
Aqui entra algo que a professora Sofia Martinelli enfatiza muito nas aulas: Materialidade não é apenas identificar impacto — é estruturar informação confiável sobre ele.
Sem governança de dados, não há materialidade consistente.
Caso 3 – O risco silencioso na cadeia de fornecedores
Uma empresa queria divulgar métricas de Escopo 3 (emissões indiretas).
Para isso, começou a coletar dados de fornecedores:
- Número de empregados
- Políticas internas
- Indicadores sociais
- Dados operacionais
Mas ninguém avaliou:
Quem é responsável por esses dados? Onde são armazenados? Qual o risco de vazamento? Há cláusula contratual adequada?
Em um cenário de IFRS S1 e S2, isso deixa de ser detalhe técnico.
Passa a ser risco estratégico.
O que tudo isso revela?
ESG deixou de ser relatório anual. Virou sistema contínuo de dados.
E dados mal governados geram três riscos reais:
1️⃣ Multas e sanções (LGPD) 2️⃣ Greenwashing involuntário (ou não..) 3️⃣ Perda de credibilidade junto a investidores
A ABNT PR 2030 fala sobre dupla materialidade: impacto da empresa no mundo e impacto do mundo na empresa, como aprendi e debato frequentemente com os brilhantes professores Patricia Bittencourt, PMP e Nelson Cordeiro
Mas o que conecta esses dois vetores?
Dados confiáveis.
Sem eles, não existe:
- Gestão de risco ESG
- Transparência
- IFRS S1/S2 consistente
- Estratégia sustentável
A virada estratégica
Empresas mais maduras estão fazendo algo diferente:
✔️ Mapeando dados ESG antes de divulgar ✔️ Integrando LGPD ao processo de sustentabilidade ✔️ Usando o eSocial como fonte estruturada de indicadores ✔️ Criando trilhas de auditoria ✔️ Definindo responsáveis por cada métrica
Governança de Dados virou infraestrutura estratégica.
E, honestamente, essa é a grande fronteira do ESG nos próximos anos.
A pergunta que poucos fazem
Sua empresa sabe responder:
- De onde vem cada dado do seu relatório ESG?
- Quem valida?
- Quem assume responsabilidade?
- Qual é o risco informacional por trás da métrica?
Se ESG é estratégia, Governança de Dados é o alicerce, como aprendo todos os dias com meus grandes parceiros Edison Bettini e Marcus Camargo.
Como bem pontuam meus grandes mestres aqui citados, e outros tantos colegas com quem exercito diariamente a visão multidisciplinar tão necessária nos dias atuais:
Sustentabilidade exige estrutura, não apenas discurso.
Vamos conversar?


